terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Já gastámos as palavras

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos.
Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.
Era no tempo em que os meus olhos
eram os tais peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade:
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse:
as palavras estão gastas.
Adeus
Eugénio de Andrade

3 comentários:

Anónimo disse...

Obrigado :)

Rita Cortês disse...

Não te sabia poeta. É uma excelente ideia esta de um canto de poesia. Um excelente ano de 2009!

Dinis Gorjão disse...

Olá Rita, excelente ano de 2009 também para ti.
A poesia faz-nos sempre bem.